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Aug 20

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Perspectiva Histórica da Medicina Chinesa

Como já mencionámos e explicámos muitas vezes aqui na nossa página, a Medicina Tradicional Chinesa mergulha a sua tradição numa história com milhares de anos. Assim, é interessante fazer uma perspectiva dessa mesma história, para que os nossos amigos e pacientes possam entender alguns dos desenvolvimentos da MTC. Quando estudamos a sua história, deparamo-nos com uma multidão de referências a dinastias, imperadores, livros, médicos e professores famosos e assim por diante. Aqui vai uma breve síntese da história da MTC.

 

A MTC ganhou a sua primeira formulação teórica – a primeira que toma a forma da MTC que já conhecemos hoje – durante os 800 anos da Dinastia Zhou, ou seja entre os anos 1000 a-C e 221a-C. Foi nesta época que foram escritos os mais significativos e influentes livros de Medicina Chinesa: o Huang Di Nei Jing (黄帝内经 ou Clássico do Imperador Amarelo), escrito e desenvolvido ao longo de mais de 1500 anos, que se divide em duas partes principais num total de 81 capítulos, ou tratados: o Su Wen, ou Questões Essenciais, e o Ling Shu, o célebre Eixo Milagroso. O Su Wen é possivelmente o mais influente e acessível destes livros e cobre a anatomia, fisiologia, diagnóstico, patologia, prevenção e tratamento das doenças, bem como as teorias do Yin e do Yang, e dos Cinco Elementos sob a forma de perguntas e respostas. O segundo livro, o Ling Shu, talvez mais complexo, discute a acupunctura e outros métodos terapêuticos em grande pormenor, e descreve os meridianos da acupunctura (este livro também é por vezes chamado Zheng Jin, ou Clássico da Acupunctura). É importante salientar também que estes dois grandes textos são considerados como fundacionais também para as teorias Daoistas sobre como viver de acordo com a Natureza, e descreve os efeitos da dieta, das emoções e do stress, do processo do envelhecimento, dos factores ambientais e climatéricos na saúde dos pacientes, mostrando como todos estes processos podem ser entendidos de modo racional, permitindo ao homem manter o equilíbrio e a harmonia com o mundo natural, e manter a sua saúde de modo perfeito. Estas teorias fazem do Clássico do Imperador Moderno um texto profundamente moderno.

 

Clássico tomou provavelmente a sua forma moderna no período entre os anos 400 e 200 a-C, mas representa uma síntese de conhecimentos que se estendem para o passado mais remoto da história da China, ao período fundacional das Dinastias antigas, que os Chineses chamam de período do… Imperador Amarelo, obviamente! O Imperador Amarelo representa a figura fundadora da civilização na China, e a sua era remonta provavelmente aos anos 2500 a-C. A forma definitiva do Su Wen foi compilada em 762 da nossa era por um académico chamado Wang Bin, que inclusive escreveu um pequeno tratado em que lista e descreve as mudanças e interpretações que fez ao texto original, capítulo esse que passou a ser incorporado no Su Wen, juntamente com outros comentários médicos, a partir duma edição completa famosa que foi feita no ano 1053. É essa edição, chamada Chong Guang Bu Zhu Huangdi Neijing Suwen (重廣補註黃帝內經素問), ou Huangdi Neijing Su Wen, Corrigido e Anotado que ainda hoje é usada como texto de base nas universidades de MTC na China!

 

A Dinastia Zhou viu também outros grandes desenvolvimentos da prática da MTC, nomeadamente o desenvolvimento do diagnóstico pelo pulso, e que é geralmente atribuído a um médico chamado Qin Ren Yue, cujos sucessos clínicos se tornaram lendários na China, e que ainda hoje é referido como o Imperador da Medicina. Foi também nesta época que se generalizou a utilização de agulhas de metal, um desenvolvimento que possibilitou uma grande expansão da acupunctura. Outro tratado fundamental da MTC que data do final deste período, e que foi provavelmente compilado à volta dos anos 300 a 250 a-C (embora pareça incorporar conhecimentos empíricos sobre plantas que datam de muito antes) é o Shennong Bencao Jing (神农本草经, o Tratado de Matéria Médica do Agricultor Divino), um livro em três grandes capítulos que é o primeiro a descrever de modo sistemático 365 plantas e substâncias e as suas acções terapêuticas, e de que já falámos num anterior artigo. Assim, podemos ver que a Medicina Chinesa na sua forma mais ou menos actual, do ponto de vista teórico, estava já constituida nos últimos anos antes da era de Cristo, no período que corresponde à nossa Antiguidade clássica!

 

À Dinastia Zhou sucedeu a Dinastia Han, que cobre o período entre 221 a-C e 220 d-C, durante o qual a China foi inteiramente unificada, seguida de uma série de Dinastias, como os Três Reinos, as Dinastias Jin Oriental e Ocidental, e as Dinastias do Norte e do Sul, todas estas épocas de alguma confusão política. No entanto, este período foi fértil em desenvolvimentos na MTC e viu surgir alguns textos fundamentais que ainda hoje são de estudo obrigatório nas escolas de Medicina Chinesa. Um dos mais importantes foi o Shang Han Lun (伤寒论, ou Tratado das Doenças de Frio), compilado antes do ano 220 por Zhang Zhongjing, e que é um dos mais antigos manuais clínicos completos do mundo. O Shang Han Lun tem seis grandes capítulos, que incluem um total de 397 secções, que descrevem todos os tipos e fases das doenças febris e os seus sintomas, e mais de 100 fórmulas de Fitoterapia para o seu tratamento.

 

Outra figura importante deste período é o famoso médico Hua Tuo, o primeiro médico de que existem registos de ter efectuado cirurgias utilizando anestésicos, no caso uma preparação chamada Mafeisan (麻沸散, literalmente “pó de óleo de cannabis”!). As intervenções terapêuticas de Hua Tuo tornaram-se lendárias, e combinavam acupunctura, medicina herbal, moxabustão, manipulação e cirurgia para conseguir curas espectaculares. Um conhecido estudioso moderno, Victor Mair, descreve-o como literalmente “tendo séculos de avanço sobre a sua época em termos de conhecimento e prática médicos”! É também conhecido pela sua filosofia Daoísta e pelo facto de ter distilado um conjunto de exercícios terapêuticos de Qi Gong chamados os “Exercícios dos Cinco Animais”, ainda hoje praticados por milhões de chineses como método de manutenção da saúde. Hua Tuo foi executado pelo chanceler Cao Cao, uma das mais controversas figuras políticas da China (o vilão do grande romance clássico chinês Romance dos Três Reinos, que é lembrado como um dos mais cruéis e implacáveis tiranos de sempre, ao ponto de a expressão equivalente do nosso “falai no Diabo” ser “falem de Cao Cao, e Cao Cao aparece” em chinês!), e com a sua morte perdeu-se uma importante tradição que ele tinha revolucionado, a da cirurgia, que foi perdendo importância e que se foi tornando tabú, de modo que esse ramo da Medicina deixou de fazer parte do canône normal da MTC.

 

Cercado ano 300 surgiu outro grande clássico, escrito pelo médico Wang Shuhe, e chamado Mai Jing ou Clássico do Pulso (脉经), a primeira exposição sistemática do diagnóstico pelo pulso, e que inclui muitas outras componentes importantes para a terapêutica, como a dispersão ou tonificação, os oito meridianos extraordinários, etc…

 

Entramos de seguida naquela que é a época dourada da civilização Chinesa. As Dinastias Tang e Song, que compreendem o período entre os anos 618 e 1279, e que foram uma era de sistematização e estandardização extraordinárias da Medicina Chinesa. Por exemplo, o célebre médico Sun Si Miao, uma das maiores figuras da MTC de sempre, conhecido como o Rei da Medicina, foi o primeiro a criar mapas de acupunctura coloridos, em que os diferentes meridianos são mostrados com cores diferentes. Sun Si Miao também escreveu e publicou um dos mais célebres textos da MTC de sempre, o Beiji Qianjin Yaofang (备急千金要方, ou Fórmulas Essenciais para Urgências que Valem Mil Ducados de Ouro,frequentemente designado simplesmente como Fórmulas dos Mil Ducados), uma verdadeira enciclopédia que sistematiza séculos de conhecimento da farmacopeia natural da China, e lista mais de 5300 fórmulas de Fitoterapia, para todo o género de patologias, para além de abordar também tratamentos com acupunctura, tratamentos de emergência e primeiros socorros, métodos de dieta e muito mais. É um dos livros que mais influenciou as gerações posteriores e ainda hoje a maioria dos tratados de Fitoterapia e Matéria Médica modernos referenciam esta obra.

 

O ano de 1027 viu um dos projectos mais importantes e decisivos para a estandardização dos tratamentos de Acupunctura e para a formulação da teoria da Medicina Chinesa: a criação do Homem de Bronze, pelo médico Wang Weiyi, uma estátua de bronze em tamanho real, em que estavam assinalados 657 pontos de acupunctura, e que serviu de modelo para muitas outras estátuas que foram depois criadas e espalhadas pela China em escolas diversas em que se faziam os exames. Na origem, o Homem de Bronze era usado nos próprios exames: a estátua era coberta de cera, e enchida com água colorida. O estudante tinha que colocar as agulhas no local correcto, e se o fizesse correctamente, a parecia uma gota de água no local quando a agulha era retirada.

 

Depois da Dinastia Song, e da conquista da China pelos Mongóis, entramos finalmente na Dinastia Ming, entre os anos 1368 e 1644, outra grande época da civilização chinesa, e que na Medicina Chinesa correspondeu a uma continuação da sistematização e compilação do saber em termos de tratamentos de acupunctura e de farmacopeia. Uma das grandes figuras desta época é o médico Li Shizhen, que viveu no século 16, e que escreveu oBencao Gangmu (本草纲目, o Grande Compêndio de Matéria Médica), talvez o maior e mais completo livro da Medicina Chinesa, que lista todas as plantas, minerais e substâncias que na altura se acreditava terem propriedades terapêuticas. Li vinha de origens humildes, e era neto de um médico ambulante de estratos sociais baixos. O seu pai também era médico e quis que o filho passasse os exames imperiais, mas Li preferiu continuar a tradição de família, tendo-se tornado num médico famoso. Li obteve um posto importante em Beijing a dado momento da sua vida, e teve a oportunidade de consultar dezenas de livros raros. Deu-se então conta das informações contraditórias, dos erros e da desordem que existia na maioria das publicações médicas, e formulou o projecto de sistematizar essa informação de modo lógico e completo. O seu Compêndio levou 27 anos a escrever, durante os quais consultou mais de 800 livros e falou com centenas de médicos ao longo de extensas viagens pela China. Neste livro com 53 volumes, Li descreve mais de 1,900 substâncias, 374 das quais nunca tinham sido referidas em qualquer outro livro, com mais de 1,100 ilustrações, e mais do que isso, lista mais de 11,000 receitas médicas que usam essas mesmas substâncias! Li Shizhen deu muita importância à prevenção, tendo descrito cerca de 500 tratamentos que tinham como objectivo a manutenção da saúde. Foi ele que pela primeira vez disse que “tratar uma pessoa que já está doente é como começar a cavar um poço quando já se está com sede”. Li Shizhen é também geralmente considerado como o maior naturalista científico da China, o que faz dele uma espécie de Garcia de Orta, que escreveu os Colóquios dos Simples e Drogas da India, de quem aliás era contemporâneo! Li Shizhen é também conhecido por um manual definitivo sobre o estudo do diagnóstico pelo pulso, que ainda hoje é usado como livro de estudo na China.

 

Depois da Dinastia Ming,chegaram ao poder na China os Manchus e a Dinastia Qing, que a governaram até 1911 e a implantação da República. Neste período a China ressentiu-se fortemente das influencias Ocidentais, que aos poucos – e sobretudo a partir de meados do século 19 – foram substituindo muitas práticas tradicionais. Muitos imperadores Qing chegaram a procurar substituir aspectos da cultura chinesa pela cultura ocidental, que era considerada mais moderna. Em 1822 a Acupunctura foi mesmo eliminada dos currículos das universidades imperiais e foi relegada para a cultura popular, tendo sido preservada apenas por gerações dedicadas de famílias de médicos ancestrais. Esta situação continuou ao longo das primeiras décadas do século 20, até que, após a chegada ao poder do partido Comunista a MTC voltou a ganhar popularidade. Em parte porque a sua aplicação era fácil e barata, e podia fazer chegar cuidados médicos a zonas pobres ou remotas com um mínimo de custo e dificuldades, o Governo ordenou o treino de dezenas de milhares de acupunctores, os célebres “médicos pés-descalços” dos anos 50 e 60. Apesar do terrível sobressalto da Revolução Cultural, em que inúmeros saberes tradicionais foram atacados, o que incluiu a Medicina Chinesa, desde os anos 80 que a República Popular da China embarcou num processo sem igual de desenvolvimento e estudo das teorias e técnicas da Medicina Chinesa, e também numa integração da Medicina Chinesa com a tecnologia moderna e com conceitos e práticas da medicina Ocidental.

 

Finalmente, vamos encerrar este artigo já longo com uma citação (também ela longa!) do médico Sun Si Miao, de que já falámos mais acima, e que se tornou famosa como sendo mais ou menos o equivalente do Juramento de Hipócrates na China, o texto que ele escreveu como prefácio de um dos seus livros e que se intitula “Da Sinceridade Absoluta dos Grandes Médicos”:

 

…Um Grande Médico não dá importância ao estatuto, à riqueza ou à idade; nem questiona se uma pessoa é atraente ou não feio, se é inimigo ou amigo, se é Chinês ou estrangeiro, e finalmente, se é educado ou ignorante. Trata todos em pé de igualdade, e age sempre com todos como agiria com os seus próprios familiares…

 

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